Mirahy e Lancelot meus guardiões

Sempre gostei de cães de grande porte, diferentes, com personalidade forte, que fossem obedientes e leais.

Com o Peter (Husky Siberiano) consegui obter algumas qualidades citadas acima, exceto obediência e lealdade. rss

A raça Rottweiler tinha todas as características que eu queria, pois na época eu estava me mudando pra uma casa, por causa da mudança e das obras, Peter ficou na casa de um amigo que tinha uma mestiça de Husky, ele voltaria assim que tudo estivesse terminado.

Eu não queria me mudar, mas minha mãe não me deu muitas opções, coloquei apenas uma condição eu queria ter um cão de guarda. Na época minha teoria era de que toda casa precisava de um cão de guarda. Definitivamente se um ladrão entrasse na nossa casa o Peter iria embora junto com ele (o bichinho adorava ir pra rua). Nem todo cachorro serve pra ser um cão de guarda.

O Peter não havia sido esquecido, mas minha mãe adorou a temporada que ele passou na “colônia de férias”, ele estava adorando sua casa temporária, na casa do nosso amigo havia um galinheiro e sempre que Peter tinha uma oportunidade ele ia “brincar” com as galinhas, é claro que algumas entraram para o seu cardápio. Sempre que eu ia visitá-lo nos fins de semana ele não dava muita bola, não poderia esperar muito de um cão independente.

Depois de tanto perturbar a minha mãe ela deixou que eu comprasse um Rottweiler, pedi ajuda ao adestrador do Peter pra escolher um, pois ele tinha um exemplar da raça.

Ele tinha um amigo que criava Rotts, alguns dias depois  chegou com um filhote, o pobrezinho ficou 24 horas na minha casa, pois estava muito doente, o adestrador devolveu ao criador. Passaram alguns dias ele chegou com outro filhote de 3 meses, achei o cachorrinho muito empinado pra idade, mas aceitei assim mesmo, até porque ele havia conseguido um preço camarada (uma dica pra vocês, o barato pode sair caro).

Um bom criador não quer se livrar logo do cachorro, ele sabe que quando um filhote é retirado antes dos 45 dias, eles podem desenvolver problemas comportamentais no futuro, pois é com a mãe e com os irmãos que ele aprende as noções básicas de higiene, sobre linguagem corporal, hierarquia, submissão e dominância.

Ele conhece o real temperamento da raça. Gasta muito dinheiro com vacinas importadas, com veterinários, com exposições caninas, com cirurgias de emergência e etc. Para aprimorar o seu plantel, ele importa cães de fora, por isso um bom filhote custa caro.

Com uma semana na minha casa o meliante mordeu minha irmã que era pequena. Minha mãe surtou e eu tive que devolver o cachorro.

Depois de algum tempo minha mãe se acalmou e comecei a pesquisar novamente no balcão (definitivamente anúncios de jornais não são os melhores locais pra se comprar um cão, principalmente quando o cachorro custa R$150,00) os anúncios sobre filhotes de Rottweiler, achei uma pessoa que criava em Campo Grande, desta vez não pedi ajuda para o adestrador, até porque suas escolhas não foram às melhores (como se eu fosse alguma expert em avaliar temperamento de cachorro.rss).

Hoje em dia existem profissionais que fazem escolhas de raça e avaliações do temperamento de um filhote aos 49 dias de vida, eu sou uma delas. hehehe

Chegando lá o dono do canil foi bem simpático, não me fez muitas perguntas, estava mais interessado em mostrar os filhotes. Eu queria conhecer os pais, mas não era possível, pois eles eram muito agressivos (o sinal estava claro, mas eu não quis ver), mesmo assim sai com um filhote (OBS: Rottweilers com bom temperamento e bem treinados não devem ser agressivos, aprendi esta lição muito tarde). Dei o nome de Zeus, sempre gostei de Rotts que tinham nomes poderosos. rss

Devido ao episódio com minha irmã (foi mordida pelo filhote de 3 meses) resolvi chamar o adestrador do Peter, não queria que o novo filhote tivesse o mesmo problema, mas sempre nos dias da aula acontecia alguma coisa, o adestrador faltava, Zeus se machucava, enfim só dificultando a situação.

Nesse meio tempo minha mãe resolveu ter uma Golden Retriever (Shena), ela sempre gostou da raça, Zeus também gostava muito da Shena e foi ficando muito possessivo, chegou a morder uma pessoa que foi fazer carinho nela. Cães possessivos não vêem seu dono como líder de matilha (nesse caso eu) e costumam fazer tudo do jeito dele, se for contrariado com certeza alguém vai ser mordido.

Ao invés da minha mãe surtar eu comecei a surtar, não era possível mais um cachorro problemático.

Fui caminhar com o Marcelo e o Zeus e pedi que ele o segurasse um instante, o bicho se revoltou contra ele, quase o mordeu, tive que segurar e dar umas broncas nele, ele me respeitava quando era conveniente, mas eu não baixava a guarda. Para o Zeus o Marcelo não fazia parte da matilha ele aparecia na minha casa nos fins de semana e não o via como líder, porém comecei a ter receio do que ele poderia fazer quando eu não estivesse por perto.

Minha mãe ficou com muito medo e não teve muita conversa ela arranjou uma pessoa para ficar com ele.

Hoje sei que existiam opções como: profissionais preparados para lidar com esse tipo de situação, castrar, medicar, exercitar, fazer reforço de hierarquia, mas na época eu não sabia o que fazer e o pior de tudo é que era um cão jovem, não tinha completado 1 ano de idade, ou seja, era um típico adolescente. São muito parecidos com os adolescentes humanos, testam nossa liderança, são mais agitados e não querem obedecer. É claro que ele poderia ter algum desvio de temperamento, mas o adestrador e o veterinário não sabiam me dizer e não me deram outras opções além do treinamento (ele já fazia os comandos básicos de obediência).

Fiquei muito triste com essa situação, ainda bem que o Peter havia voltado pra casa.

Nesta época já existia muitas informações na internet, fiz várias pesquisas sobre a raça, principalmente sobre temperamento. Consegui achar um canil de Rottweiler com várias informações que eu julgava ser importante. Marquei para conhecer o canil e tentar ver os cães (na cabeça da minha mãe entrar outro Rottweiler na nossa casa estava fora de cogitação, mas eu só queria conhecer os cães. rss).

Chegando lá conheci a dona do canil que fez várias perguntas sobre a minha rotina, pois para ser dono de um Rottweiler é preciso ter pulso firme, ser disciplinado e sempre se manter como líder de matilha (naquele momento eu já tinha estudado tanto sobre o assunto que já estava me achando expert e com certeza não cometeria o mesmo erro). Ela me disse que iria soltar um cão de cada vez para que eu pudesse conhecê-los melhor. Escutei um barulho que parecia o estourou de uma boiada e vi que ela estava soltando todos os Rottweilers (6 cães adultos). Eu estava com o Marcelo e com a minha irmã, falei pros dois “abaixem os braços, encostem no carro e não façam contato visual”. Pra minha surpresa aquelas “feras enormes” começaram a nos cheirar e abanar o rabo, ela se aproximou e disse que nós poderíamos fazer carinho neles, pois eram mansos. Percebi que um Rottweiler equilibrado e que vê seu dono como líder não deve mostrar sinais de agressividade. Saí de lá extasiada, vi que poderia ter o cachorro que eu tanto queria, mas sem desvio de temperamento.

Obviamente minha mãe não estava curada do trauma e demorei um mês para convencê-la a conhecer os cães.

Uma das fêmeas tinha acabado de ter filhotes e estavam num local perto da minha casa, levei minha mãe para ver os peludinhos, ela disse que só iríamos conhecer (não acredito que os pais ainda caem nesse truque tão velho.rss).

É claro que todo peludinho conquista os corações mais duros, estava chegando meu aniversário e todo mundo sabia o que eu queria de presente. Minha mãe cedeu (te amo mãe!!!), quando os filhotes estavam com 45 dias fui buscar minha linda Mirahy.

Iniciei o treinamento na empresa da Claudia Pizzolatto. A criadora dos meus Rottweilers participava de exposições de cães, ela achou que a Mirahy tinha potencial e estava dentro do padrão da raça. Nós a levamos para um Match (exposição não oficial), e para o meu orgulho minha neguinha ganhou na classe que entrou, ela estava com 5 meses.

Com 7 meses ela participou de uma exposição oficial (as exposições servem para qualificar, classificar e selecionar exemplares que tenham potencial para aprimorar a criação de cães).

Cheguei na exposição atrasada, mas Mirahy já estava lá. No momento em que a vi saindo da pista levei um susto “será que a exposição acabou?”

Mirahy foi desclassificada, para minha surpresa um dos seus pré-molares não havia nascido em Rottweiler é uma falta desclassificante.

Foi chato, mas não dei muita importância até porque menos um dente não faz diferença na hora de morder algum invasor. hehehe

A criadora não gostou da situação e perguntou se eu queria outro cachorro pra compensar, eu falei que não, só fui parar nas exposições porque ela me convidou e achei que seria legal. Normalmente nesse tipo de situação a maioria dos criadores te ignora e diz que não podem fazer nada a respeito, pois eles não controlam a genética dos cães. Mas ela tinha outro tipo de postura e estava com 3 Rottweilers de 10 meses e só venderia esses cães para pessoas que os levassem para exposições, ela havia escolhido um para ser o seu padreador e me ofereceu um dos 2 para compensar o problema do dente da Mirahy.

Eu não queria outro cachorro (já tinha 3) e minha mãe iria me expulsar de casa se eu aparecesse com outro cachorro. Mas meu marido (Marcelo) ficou apaixonado pelo Lancelot e como minha mãe é a maior puxa saco do Marcelo, aceitou ter mais um membro na família, quero dizer matilha. rss

Quando fui pegar o Lancelot levei a família inteira, ele estava na casa de uma amiga da criadora e só quem estava lá era o caseiro, quando chegamos minha mãe quase desistiu da idéia, ela falou que aquilo não era um cachorro era um cavalo. Exageros a parte eu fiquei meio receosa de colocar aquele “pequeno” animal (ele devia estar pesando uns 40kg, agora está com 54kg) no carro, eu não era treinadora e por cautela levei uma focinheira e coloquei no bichinho,  ele não queria entrar no carro porque não nos conhecia e tivemos que fazer uma forcinha.rss

Dentro do carro ele resolveu sentar no colo da minha irmã (a pobre coitada só tinha 10 anos), minha mãe queria que eu o tirasse, falei que o bicho estava confortável era melhor deixar como estava (não se mexe em time que está ganhando).rsss

Ele realmente estava calmo e decidi tirar sua focinheira, minha mãe estava quase tendo um ataque dizendo que o bicho podia se rebelar e atacar todo mundo dentro do carro (exagerada!!!), no final das contas ele foi um Lord tirei sua focinheira e ele continuou super comportado sentado no colo da Fernanda, é claro.hahaha

Chegando em casa tínhamos um problema chamado Peter, ele olhou pra cara do Lancelot e já quis partir pra briga, Lancelot era um santo só queria brincar. Peter era dominante e se achava o líder da matilha e estava vendo o Lancelot como intruso, Lancelot era muito submisso e sempre gostou de socializar com outros cães.

Levei alguns meses para ensinar o Peter a não devorar o Lancelot (o pobrezinho sofreu, de vez em quando eu tinha que tirar o Peter de cima dele) e tive que ensinar ao Lancelot que o Peter nunca iria brincar com ele. Sendo a líder da matilha consegui introduzir esta regra para os dois. Saíamos com os dois para criar sentido de matilha e fazíamos treinamento de obediência básica, depois de uns 6 meses e muito trabalho os dois aprenderam a conviver juntos até o final da vida do Peter.

No fim consegui ter o meu tão esperado Rottweiler, quer dizer 2. Viram como um dente de Rottweiler é valioso?!rss

Hoje Mirahy e Lancelot tem 7 anos (2013).

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